FLUENTES
nasci para não viver
sou fraco de natureza
se existe alguma força ela vem
desta fraqueza
meu eu não conhece agora
ora pende para os olhos
ora pende para os ouvidos
ora pende de si mesmo
ora ora
buscante o além
da dor da contemplação
da vida que contém
este não sei que buscar
rebuscado em que jogo
o obus sem precisão
não amém
FORJAS
Há muito que não sei
de mim há muito que sei
que o vento e as coisas
que correm cá dentro
como estrelas não morrem
mandalas solares
em frio relento
Tantas vezes supus esgotado
e o esgoto desanda a escorrer
entremeado
por um fino fio perfumado
e aproximo o olfato algoz
no afoito afã de o colher
mas me invade as narinas e a boca
este gosto indigesto de bosta
perco a voz
entre uma e outra flauta
às vezes toca a minha
desencantada de si mesma
ma’encantada de tocar-se
só não sabe quem a toca
fazendo-a estremecer-se
de prazer? ou de dor? como em sal
uma lesma
FLUTUANTES
Sou a flor do outro monte
entre a onda e a rocha, diante
do momento fulminante
fulminar-me ante gigante
’squebralhar de crista e monge,
desintegrada e gasto. Ao longe
miro o que se foi petrificado
enlaçado à dissolvida, mas me tange
o que sou e não está entre:
a pedra esperativa e verticais
águas por vir beijantes
e suas bocas flamejantes,
suicidas assassinas, como de antes
do mundo começar entre os portais
da estreita consciência que me guia
no amplo limiar circundeado
pela divina sorte de um dado
jogado
entre a rocha e a crista
entre os vales brotado
na pedra do monte
sou dado
a espera do próximo lance
a espera da próxima lança
do acaso
eu luto para permanecer
e agarro em mim a profundidade possível
impossível
(sou raso)
o próximo soldado joga o dado
doido eu grito ao intangível
mas eu mudo
sou o próximo
resultado
Morto foi o Cristo
Viva veio a Cruz
E a Rosa esquecida
Foram todos perdoados
O Mosteiro brotou na rocha
E o mar acalmado
Meditou com castos lumes
Lumiou-se a tristandade
Se levantou una infindas cruzes
Foi das lanças dos soldados
Foi das danças do ocaso
Foi mais um lance de dados (?)
Mas alarme soa em mim
Volto à triste e amarga ventura
De ser crista, rocha e pequenim
Ser entre e ser o que não dura
Que embora foi no embate
Sem fim
Não sou nenhum Caim
Nem sou Abel algum
Não estou em torre nenhuma de marfim
Nem de Babel
Minha torre não é de papel
Pois não há, e o papel é ser vagante
Sem mim, sou o que recuso-me a ser hesitante
Um Casimiro de Abreu pedante.
poema e voz: wilton cardoso

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