adentro a igreja vazia
a igreja abandonada
pelos de hoje em dia
cabelos de minha amada
derramados na eucaristia
oramos, almas penadas
espíritas carnes vadias
os olhos de minha amada
são os olhos de Maria
mandalas esparramadas
cinzas em alvos dias
que em rubras raízes raiadas
rios de fel e agonia
rumo ao negro abismo do nada
mandala fim de alegrias
a mandala noturna apagada
reacende ao calor do dia
a cinza íris numiada
em azul, verde e alegria
celesta os vitrais da amada
igreja, do leste Maria
cantada, invocada, aclamada
chama oculta na voz do dia
diz no silêncio do nada
vem, há horas não frias
que oras no seio da amada
em êxtase canta a Maria
na santa casa sangrada
pelas lágrimas de Maria
escorrendo desnorteadas
pelo santo véu que me guia
à negra íris sagrada
ao centro da íris que eu via
Maria Ísis alada
a envolver-me a alma sombria
a alçar minh’alma vazia
a solares alturas, morada
onde queima a carne vadia
onde mora Maria ocultada
inacessível essência Maria
onde carne é onda e a onda nada
canto noturno na igreja vazia
uma Ave Maria não cantada
jamais pelos de hoje em dia
a uma adorada Maria desencantada
lacrimejando sangue na torre esguia
da igreja velha abandonada
no triste ocaso do dia
para que surja de um acaso e de um fim
uma des-
conhecida nossa
Maria.
poema e voz: wilton cardoso

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