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I

O que contém a caverna escura
luz ? contém o breu da noite morta
sem estrelas, luas ou luzes suas
som, silêncio denso em todo canto
que a boca venta ouvida escuta
lenta e absorta grita muda

e o grito lento, encoberto. Manto
da caverna envolve e absorve-lhe
converte-se em bolha de vazio
atrito entre pedra e água em branco
recoberto em negro de negrume
escuta ! Este negror sem sombra

e que a vida da caverna exala
branca esvanecida em grito em sombra
que o silêncio escuta atento e suga
brando e lento o som da gruta galga
disperso, vesgo em visco, muda.
Se fora foi como o que esvai-se em pranto.

II

E a caverna nem sabe que existe
que ela é ela mesma
nem, portanto, que vive
noite à noite, sempre e fluida, permanente
a caverna corre
como o rio noturno que adentra

se volta à si mesma
ou mesmo à nada
a espreita de sua mesmice
parada e calada amorfa e sinuosa
lhe beijam águas que cavam
e nada trazem, que não o vazio.

A caverna não conhece o plasma
que escorre não entende o plasma
liso cósmico que lhe toma os vãos
gósmico plasma a caverna carrega
não sabe dos óleos tintas que lhe tinge as margens
não pasma ante nada e tudo na caverna escorrega.

A caverna se solta em si mesma
não há perguntas
e não fossem luzes plásticas
e metálicas, químicas e físicas
máquinas, não viveria
não haveria cores vida não haveria.

III

O que fica deste oco
ocado vazio cheio d’água
transparente raso e ralo
esvai pelos vãos deixando vãos
vazios. Tudo em vão
vão águas incolores inodoras e frias

águas que aguaceiam vazias
transparece num disco de luz
e desvanece de novo nas sombras
no ocaso das luzes do rio
que reaparece à frente, debaixo das rochas
acaso de águas e rochas e raios de sol

translúcidos rios solares
e lunares, momentos de relvas
de luzes por entre a selva
esverdescente e num segundo instante
novo negrume de novo nada
de cor e de luz arredia e sombrante.

A caverna volta a tornar
o que se diz da caverna à caverna
o que diz a caverna?
A caverna não dita
bendita ou maldita, a caverna medita
eu que a digo o que é

nada a caverna me dita
sobre si ou sobre nada
sobre mim. Sob seu teto impreciso
as coisas são sombras e nada precisa
as coisas misturam-se na vaga imprecisa
aquilo, tu e eu no plasma imprevisto.

IV

O duplo da luz do ato
falo do duplo da relva verde do mato
falho recobrindo as campinas
serras toneladas de terras
pedras raízes e águas
sujas ralos de vida halos

até a caverna que hiberna
de um sono profundo, duplo
do mundo desperto
de um imundo sonho duplo
intramundo de insônia
perambula o mundo a caverna.

V

A caverna se repete sempre
indiferente ao que é passado uma vez
ou mil vezes passado e a diferença
entre mil vezes e uma
é absolutamente nenhuma
onde reina absoluta a mente resoluta

a caverna mente, serpente
sempre e sempre, sempre. Sempre
a mesma caverna muda
salões e colunas antes
não vistos num abrir de olhos gigantes
novos (e velhos) espaços sombrantes.

poema e voz: wilton cardoso

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