Musa, toda musa, filhas de Mnemósine, a memória, lembrar, lembrar passa, só o esquecimento é eterno. Musa, musa. Musa, musa que não mais se usa, ninguém virando pedra nos cabelos da Medusa. Bóreas, Zéfiro, os ventos passam e nada deixam escrito na superfície das águas. No fundo da água, no fundo da ânfora, no fundo do cálice, a história toda, alguém, filho de um rio e de uma fonte, ninguém, e uma ninfa chamando, eco, eco, eco, mínimo espetáculo.
Que mais existe senão afirmar a multiplicidade do real, a igual probabilidade dos eventos impossíveis, a eterna troca de tudo em tudo, a única realidade absoluta? Seres se traduzem, tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma, tudo irremediavelmente metamorfose.
As histórias, sozinhas, se contam entre si. A fábula do Minotauro narra a saga de Perseu para um público de Medusas. Os homens são apenas os órgãos sexuais das fábulas. Qualquer fábula vive mais que uma pirâmide do Egito.
Heródoto buscou, entre miríades de povos, uma fábula que, como o imã, fosse o centro e a raiz de todas. Mas as fábulas não têm centro, elas se expandem em todas as direções, entrópicas, auto-proliferando-se, alimentando-se do cadáver putrefato das fábulas já esquecidas. Um dia, Heródoto voltou, barbas brancas como a espuma das ondas do mar de Atenas. Não trazia a unidade, trazia a dispersão.
texto: paulo leminski
voz: wilton cardoso

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