aquele que não posso ser está vivendo
não sei o que ele quer na funda noite escura
daquele quarto ao fundo que sequer eu entro
a casa agora estranha e a amada não escuta
a voz daquele eu mudo que agora já não ama
desenvolta ela passeia e se deita em sua cama
e o quarto não clareia e mesmo assim enche de luz
este outro a possui enquanto a casa se revela
antiqüíssima morada de deuses que conduz
aquele eu cego a viver à luz de velas
ver sem velas ou sol imponderáveis nuances dela
casa sem piso oitão ou teto vizinha do infinito
um rociar de eternidade impregna os cômodos disformes
foi tudo ti culpada amada a voltear por cômodos famintos
de não sei quê de além amor a entristecê-la enquanto dormes
co’este outro e sem meu toque nos perdoe
luz inconsciente a lumiar o mar profundo
em que mergulha aquele que se diz eu
na busca indefinida de um mapa o mar inunda
cômodos e casa e tudo bóia e se perdeu
do eu amar e amada cômodos e casa e aquele outro
ainda chora o que não sinto e às vezes tem
(tenho certeza) amada em leito seu e amor um pouco
que (náufrago) não sei e luz é assim, às vezes vem...
poema e voz: wilton cardoso
poema incidental: a casa (vinícius de morais)

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