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texto e voz: wilton cardoso
canção: odair josé & leandro & leonardo

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texto - wilton
canção - corações psicodélicos (lobão)

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poema: ferreira gullar
voz: wilton cardoso

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poema: ferreira gullar
voz: wilton cardoso

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poema: paulo leminski
voz: wilton cardoso

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Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir...

letra: humberto gessinger
voz: wilton cardoso

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Ela, a que não escreverei,
a que me rascunha os ventos e me arranha a língua,
caos entremeando-me os dedos,
ela, a que me escreve em suas cartas.

poema: wesley peres
voz: wilton cardoso

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árias e voz: wilton cardoso

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Aqui está um livro
Um livro de gravuras coloridas;
Há um ponto-furo. um simples ponto
simples furo
E nada mais.

Abro a capa do livro e
Vejo por trás da mesma que o furo continua;
Folheio as páginas, uma a uma.
- Vou passando as folhas, devagar,
o furo continua

Noto que, de repente, o furo vai se alargando
Se abrindo, florindo, emprenhando,
Compondo um volume vazio, irregular, interior e conexo:
Superpostas aberturas recortadas nas folhas do livro,
Têm a forma rara de uma escultura vazia e fechada,
Uma variedade, uma escultura guardada dentro de um livro,
Escultura de nada: ou antes, de um pseudo-não;
Fechada, escondida, para todos os que não quiserem
Folhear o livro.

Mas, prossigo desfolhando:
Agora a forma vai de novo se estreitando
Se afunilando, se reduzindo, desaparecendo/surgindo
E na capa do outro lado se tornando
novamente
Um ponto-furo, um simples ponto
simples furo
E nada mais.

Os seres que a construíram, simples formigas aladas,
Evoluíam sob o sol de uma lâmpada
Onde perderam as asas. Caíram.
As linhas de vôo, incertas e belas, aluíram;
Mas essas linhas volantes, a princípio, foram
se reproduzindo nas folhas do livro, compondo desenhos
De fazer inveja aos mais “ sábios artistas”.
Circunvagueando, indecisas nas primeiras páginas,
À procura da forma formante e formada.
Seus vôos transcritos, “refletidos” nessas primeiras linhas,
Enfim se aprofundam, se avolumam no vazio
De uma escultura escondida, no escuro do interno;
Somente visível, “de fora”, por dois pontos;
Dois pontos furos: simples pontos
simples furos
E nada mais.´

poema: joaquim cardozo
voz: wilton cardoso

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Aqui está um livro
Um livro de gravuras coloridas;
Há um ponto-furo. um simples ponto
simples furo
E nada mais.

Abro a capa do livro e
Vejo por trás da mesma que o furo continua;
Folheio as páginas, uma a uma.
- Vou passando as folhas, devagar,
o furo continua

Noto que, de repente, o furo vai se alargando
Se abrindo, florindo, emprenhando,
Compondo um volume vazio, irregular, interior e conexo:
Superpostas aberturas recortadas nas folhas do livro,
Têm a forma rara de uma escultura vazia e fechada,
Uma variedade, uma escultura guardada dentro de um livro,
Escultura de nada: ou antes, de um pseudo-não;
Fechada, escondida, para todos os que não quiserem
Folhear o livro.

Mas, prossigo desfolhando:
Agora a forma vai de novo se estreitando
Se afunilando, se reduzindo, desaparecendo/surgindo
E na capa do outro lado se tornando
novamente
Um ponto-furo, um simples ponto
simples furo
E nada mais.

ERRATA: POR UM DESCUIDO DO DECLAMADOR A ESTROFE ABAIXO NÃO FOI LIDA. SEXTA(19) OU SEGUNDA(22) PUBLICO NOVA VERSÃO DO POEMA.

Os seres que a construíram, simples formigas aladas,
Evoluíam sob o sol de uma lâmpada
Onde perderam as asas. Caíram.
As linhas de vôo, incertas e belas, aluíram;
Mas essas linhas volantes, a princípio, foram
se reproduzindo nas folhas do livro, compondo desenhos
De fazer inveja aos mais “ sábios artistas”.
Circunvagueando, indecisas nas primeiras páginas,
À procura da forma formante e formada.
Seus vôos transcritos, “refletidos” nessas primeiras linhas,
Enfim se aprofundam, se avolumam no vazio
De uma escultura escondida, no escuro do interno;
Somente visível, “de fora”, por dois pontos;
Dois pontos furos: simples pontos
simples furos
E nada mais.

poema: joaquim cardozo
voz: wilton cardoso

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460>_660271

 

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O obscuro mar de uma fronteira
Entre dois povos inimigos brame.
O lume bruxuleia entre o arame
E o arco com que Harpia toca as beiras

Divinas, beiças vaporosas, águia
Das fendas dos altares. Implorai
A ela o alimento que se esvai
No vento esvanecido desta ária,

Que vem silente no silêncio escuro
E duro e se espraia nas areias,
Arenas de batalhas co’as sereias,
Inimigas dos inimigos brutos.

Abruptos aliados de madeira
Contra a ausência de água derradeira.

poema e voz: wilton cardoso

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Paleolítico alaúde, fel
Ao vil ouvido do esquecido, fere
As lascas farfalhantes na intempérie
Que troa. Torna à tona o escarcéu:

“Lembra-te? Lambe-me os flancos nus, flama-os
Com tua língua ardente, me navegue,
Destroça-te nas vagas, não renegue-me.”
Faz sol no lago pútrefo de Thânatos.

Teatro de hipercúbicos milímetros,
Sobre lentes fortíssimas, retinas
Retêm a trama do cauim no vítreo
Cosmo asséptico. Coma cristalina,

Instante excêntrico sempre durante...
E moras dentro do sem dentro ou antes.

poema e voz: wilton cardoso

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Da ponta do diamante eterno, o tempo
Risca na face do cristal o lago
Das galerias submergidas. Algo
Mina sob a campina. Galga o vento

As comas do crepúsculo gelado...
Um putrefar primeiro flore lento
Dentro do tenso retinir, silêncio.
Densas nuvens navegam no ar calmo...

Calma de morte, se houver alma ela ressoa
No ausente longe da faísca muda e alva:
Átimo de ruínas. Noite larga... A alba
A aurora espera enquanto a esfera sobrevoa

A gema congelada. Raia um tênue raio,
Instante cintilante no orvalho.

poema e voz: wilton c

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I

Às duas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque em dez outras casas de rei, q
[não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanésia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos e da
[viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse
[jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro
[mais fino
nossas lavras mto. nossas por herança de nossos pais e
[sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos
[martirizados
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa
[melhor letra
estes nomes q em qualquer tempo desafiarão tramóia
[trapaça e treta:
Esmeril Candonga
Pissarão Conceição
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr. Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não for vendido,
[por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas
[e arriatas,
q trocar é o nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique
[esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no
[sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no
[longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um
[dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes
[portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
Lavra da Paciência
Lavrinha de Cubas
Itabiruçu

II

Mais que todos que deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.

E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil

Mas que por frágil é ágil
e na sua mala-sorte
se rirá ele da morte.

III

Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família.
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vômica.

IV

Este hemos por bem
reduzir à simples
condição de ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se um clarão
Este será tonto
e amara no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.

V

-Não judie com o menino,
compadre.
-Não torça tanto o pepino
major.
-Assim vai crescer mofino
sinhô!

-Pedimos pelo menino porque pedir é nosso destino.
Pedimos pelo menino porque vamos acalenta-lo.
Pedimos pelo menino porque já se ouve planger o sino
do tombo que ele vai levar quando monte a cavalo.

- Vai cair do cavalo
de cabeça no valo
Vai ter catapora
amarelão e gálico
vai errar o caminho
vai quebrar o pescoço
vai deitar-se no espinho
fazer tanta besteira
e dar tanto desgosto
que nem a vida inteira
dava para contar.
E vai muito chorar.
(A praga que te rogo
para teu bem será.)

VI

Os urubus no telhado:

E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo
e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada
e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro
taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios,
e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros
[camaradas;
e a besta Belisa renderá os arrogantes corcéis da monarquia,
e a vaca Belisa dará leite no curral vazio para o menino
[doentio,
e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério
se rirão se rirão porque os mortos não choram.

VII

Ó monstros lajos e andridos que me perseguis com vossas
[barganhas
sobre meu berço imaturo e de minha minas me expulsais.
Os parentes que eu amo expiraram solteiros.
Os parentes que eu tenho não circulam e mim.
Meu sangue é dos que não negociaram, minha alma é dos
[pretos,
minha carne dos palhaços, minha fome das nuvens,
e não tenho outro amor a não ser o dos doidos.

Onde estás capitão, onde estás, João Francisco,
do alto de tua serra eu te sinto sozinho
e sem filhos e netos interrompes a linha
que veio dar a mim nesse chão esgotado.
Salva-me, capitão, de um passado voraz.
Livra-me, capitão, da conjura dos mortos.
Inclui-me entre os que não são, sendo filhos de ti.
E no fundo da minha, ó capitão, me esconde.

VIII

-Ó meu, ó nosso filho de cem anos depois,
que não sabes viver nem conheces os bois
pelos seus nomes tradicionais... nem suas cores
marcadas em padrões eternos desde o Egito.
Ó filho pobre, e descorçoado, e finito
ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos
para a tristeza nossa a consumação de eras,
para o fim de tudo o que foi grande!
Ó desejado
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande
à maneira de um lago de pez e resíduos letais...
És nosso fim natural e somos teu adubo,
tua explicação e tua mais singela virtude...
pois carecia que um de nós nos recusasse
para melhor servir-nos. Face a face
te contemplamos, e é teu esse primeiro
e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro.

poema: carlos drummond de andrade
voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

"Tentativa de Norte" é um longo poema que faz parte do "Ciclo de Jaiara", e-book que pode ser baixado livremente do site abaixo:
http://br.geocities.com/naumarginal/

"Tentativa de Norte" é de quando este que vos fala/escreve fazia poemas metafísicos lamentando/evocando o ser que se perdeu na neblina destes tempos mercantis. Agora este lamento é impossível para mim, impossível partir do agora para trás, para centros e dentros. Resta partir do agora para outro agora, para adiante, do dentro do agora para o fora. A única coisa a evocar é a margem, a passagem para a passagem, a energia de passagem, somos apenas os fios condutores da poesia, não há norte, existe apenas sorte, limiares do acaso, mas houve um tempo de tentativa
de norte.

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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poema e voz: wilton cardoso

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texto e voz: wilton cardoso

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Este é de quando eu ainda fazia poemas metafísicos. Ele está no e-book "A TRADIÇÃO TRAVESTIDA", que pode ser baixado gratuitamente no site da NauMarginal: http://br.geocities.com/naumarginal/

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poema: benedito ventura
voz: wilton cardoso

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poema: benedito ventura
voz: wilton cardoso

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poema: benedito ventura
voz: wilton cardoso

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poema: benedito ventura
voz: wilton cardoso

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Benedito Ventura é um velho poeta conterrâneo, provinciano (ou municipal, segundo Drummond) e saudoso de suas memórias de infância, um pouco cioso de sua posição de homem de letras morrinhense, mas que, às vezes, tem um bom faro para ver e ouvir com meninos, cães, ruínas e velhos miseráveis. De vez em quando Mestre Bené baixa. Não há saída, a não ser deixá-lo fazer seus poemas. Estes poemas que vou publicar são os que mais me tocaram. Prova que, por mais que tente o cosmopolitismo, pós e pop, resta em mim um fundo de província. Que há de se fazer?

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poema e voz: wilton cardoso

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alguns poucos não precisam compor obras de arte
pois conseguem fazer da vida uma estética
é mais que fazer de si uma obra de arte trata-se antes de uma ética
compor a vida com ardor e rigor na esteira do acaso sob o céu do caos
nas margens da cidade

texto e voz: wilton cardoso

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preciso me jogar nesta cidade
preciso me jogar neste poema
preciso me jogar na terra
preciso me jogar de mim
eu jogado no mundo (como todo mundo)
desde mim preciso jogar sem fim
com todas as ruas
linhas
rotas
sustos
e possibilidades
que atravessam esta atmosfera
encontramo-nos
irremediavelmente
perdidos
na cidade

texto e voz: wilton cardoso

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Ser, na cidade, um idiota, um a mais, estar na cidade, em meio às ruas,
pessoas, lojas e casas. Corro nos fios dos postes sobre mim, elétrico,
comunicante, corro nos carros nas ruas, nos vôos dos pombos inúteis, nos mercados. Escorro de mim, esporro de mim, explodo-me no meio das tramas urbanas, sem fins, sem fontes, sem sentidos. Sou todo sentidos, afeto afeito a ninguém, sem dono: circular todos os circuitos. Origem, minha cicuta, meu benzeno. Corro no frio noturno, no calor de um copo de vinho, no pedaço de empada fria, quase perdida perder-se de si perder-se ao acaso dos passos do olhar tocar-te cidade que me arde beber-te as vísceras convulsas pensar com a fuça um cão um cão enfeitiçado carniça feiticeira cadela filhadaputa um cão ao acaso de seu desejo instintivo revirando lixos e lambendo bucetas a cidade cu a cidade merda a puta cidade cilada o cão se acha perdido na cidade

mas não há muitos cães vagando pela cidade pois ela é objeto de uma severa assepsia diária contra pragas proliferantes e cães e loucos e bêbados não trafegam por ela impunemente ou pelo menos não deveriam trafegar como não deveria haver catadores de lixo mendigos e pivetes como não deveriam circular ladrões putas e travestis que no entanto vagam sem cessar nos seus circuitos clandestinos no seu mercado negro a cidade tem seu lado escuro imbricado no seu claro mas tão imbricado que diria misturado água e óleo água e álcool água e água com seu rio turvo correndo emaranhado com o curso cristalino a ponto de nenhuma assepsia funcionar efetivamente a ponto de haver apenas águas impuras que filtro algum depuraria como se a sujeira fosse da natureza de sua água de sua carne de seu espírito mais profundo (se houvesse numa cidade profundidade)

texto e voz: wilton cardoso

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pássaro sol
lua cauim
tao buda
brahma zeus
cristo ogum
sacerdotes não salvam
o olhar perdido
dos deuses perdidos
na névoa do tempo
(nesta cidade
só a coca-cola
ilumina-me a alma
corroendo as entranhas)

igrejas são
ruínas sagradas
palavras sagradas
nos vêm necrosadas
múmias expostas
ao gozo turista

só os bruxos descrentes
que não falam em nome de deus nenhum
não olham para trás
e caminham absortos no incerto
das coisas e eventos guardam
por esquecimento
o olhar perdido
perdido no tempo

texto e voz: wilton cardoso

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Não se pode começar numa cidade. Nela, estamos sempre em meio a seu processo caoforme. Nem quando nascemos começamos e nem mesmo quando somos concebidos e nem ainda se começa com nossos pais e avós. Qualquer nascimento que ocorra é tão somente um pequeno processo da maquinaria urbana e antes e depois deste evento há inúmeros circuitos processuais conectados a ele. Circuitos de direções, dimensões e finalidades muito diferentes do nascer. Há um, por exemplo, que te marcará pela sexualidade, outro te marcará pela riqueza, outro pela cor e assim por diante. E cada uma dessas marcas desencadeia outros processos e marcas que serão o seu destino. Estes circuitos te esperam com suas malhas e deles não se pode escapar. As suas marcas te cobrem o corpo antes de seu nascimento, antes de haver corpo já existe, na cidade, uma férrea disciplina para ele, incontornável.

texto e voz: wilton cardoso

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tal CPF tal wilton cardoso moreira
encontra-se conectado por sinapses e dutos
e hastes e bytes por palavras mágicas
e engrenagens mecânicas e circuitos eletrônicos
ao corpo da cidade à rede urbana planetária

o bebê ligado na placenta
o executivo no mercado
o mendigo na fome
a criança nos seus brinquedos
a moça no encanto
o pássaro no ar
o doente na morte
e todos em todos por circuitos muito diversos
em velocidade natureza e extensão
a cidade funciona
murmura-os
ouço esses barulhos
todos inumeráveis inomináveis
atravessando-me
insuportáveis
enlouqueço
e sou apenas um murmúrio a mais da cidade
que um dia cessará
e restará um nome numa lápide
da cidade um endereço esquecido
um número a mais

mas antes
eu vou deixar ela cantar em minha boca
forçar ela cantar na minha boca
a toda voz todas as suas vozes*
como homenagem
e por vingança

* cantar todas as vozes é obviamente inviável projeto de um pensamento
megalomaníaco de uma loucura onisciente e onipotente esquizofrênica e
paranóica que confunde o caos de seu vislumbre com a simultaneidade das
vibrações heterogêneas da cidade

poema e voz: wilton cardoso

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a cidade boca me murmura
dente me mastiga
bytes me calculam
sonho me delira

movo-me incongruente nos seus sucos
planto rastros nas ruas
brotam lembranças esquecidas

circula uma cidade em mim
circulando na cidade
ao léu
sempre ao léu
mesmo quando o véu da necessidade
faz crer um sentido ao movimento que não cessa
na cidade
da cidade

qualquer
qualquer cidade
mesmo quando esta e só esta
encravada num sertão caipira

mas não é uma cidade universal
um ser-cidade é antes
um estado de cidade
um estalo
um irremediável estar (na) cidade cilada
em frangalhos
desde o nascer
desde antes muito antes

poema e voz: wilton cardoso

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